Nascimento, formação, clube, origens familiares e representação nacional nem sempre contam a mesma história.
Não acompanho o Mundial. Cheguei a ser um grande entusiasta do futebol, quando era mais novo. Estava no Parque dos Príncipes quando o PSG eliminou o grande Barcelona. Festejei quando eliminou o Real Madrid, 4-1 na segunda mão, um dos jogos mais épicos que alguma vez vi. Sofri com um longo jejum do Sporting, e quase pintei o cabelo de verde quando voltámos a ser campões, com o enorme Schmeichel na baliza. Fui sócio do Beira-Mar. Realmente, houve um tempo em que o futebol me interessava mesmo. Os meus heróis, na altura, chamavam-se Weah, Baggio, Bakero, Ginola, Matthäus, Hagi. Tudo nomes que não devem dizer grande coisa aos mais novos. Hoje não tenho paciência, por mil razões. Mas isto não impede que o Mundial continue a ser um objecto fascinante para olhar para a sociedade, para a mobilidade e para as geografias contemporâneas.
Esta análise nasceu de um interesse mais geográfico do que propriamente futebolístico. Construí uma base de dados sobre os 1 248 jogadores das 48 selecções do Mundial de 2026, recorrendo à inteligência artificial como ferramenta de apoio à pesquisa, organização e validação da informação (não teria tempo a dedicar a isto, se não fosse a IA). A base não substitui o trabalho crítico: foi necessário verificar fontes, corrigir erros, documentar incertezas e distinguir aquilo que é sabido daquilo que apenas parece provável. Mas mostra bem uma coisa: usada com método, a inteligência artificial pode ajudar a fazer perguntas melhores aos dados.
A minha pergunta era a seguinte: de onde vêm os jogadores das selecções nacionais, e que trajectórias de mobilidade e de migrações revelam? A resposta é tudo menos simples. Cada jogador tem o seu percurso próprio. Um jogador pode representar um país, ter nascido noutro, ter feito a sua formação futebolística num terceiro, jogar profissionalmente num quarto, e ter ainda uma história familiar ligada a outras geografias. Por isso, em vez de olhar apenas para a nacionalidade desportiva, podemos olhar para uma selecção como uma sobreposição de geografias.
No futebol internacional, as selecções são organizadas por federações nacionais, competem em nome de um país ou território, e mobilizam símbolos, hinos, bandeiras e sentimentos de pertença. Mas a vida dos jogadores é mais complexa do que essa moldura institucional. Nesta base de dados, considerei cinco camadas: o país ou território representado, o local de nascimento, o primeiro clube de formação identificado, o clube actual e as origens familiares documentadas nas fontes públicas consultadas. Não são dimensões equivalentes, nem têm todas o mesmo grau de exaustividade. Mas, em conjunto, ajudam a perceber melhor a mobilidade internacional que existe por trás de uma competição entre selecções nacionais.

O primeiro resultado já é interessante: a camada mais internacionalizada é a do clube actual. Cerca de 72% dos jogadores actuam fora do país que representam. Para a maioria dos jogadores do Mundial, representar uma selecção nacional não significa trabalhar diariamente nesse mesmo espaço nacional. Voltaremos ao assunto noutro artigo.
A distância é grande em relação às outras dimensões. Cerca de 23% dos jogadores nasceram fora do país que representam, e cerca de 22% formaram-se fora. Já a camada das origens familiares deve ser lida de outra forma. Foi possível documentar alguma informação sobre origens familiares em 425 jogadores, ou seja, 34,1% da base.

A tipologia das trajectórias ajuda a evitar uma leitura demasiado simplista. O padrão mais comum não é o do jogador que nasceu fora, se formou fora e joga fora. São os jogadores que nasceram e se formaram no país representado, mas que jogam actualmente fora. São 608 jogadores, quase metade dos seleccionados. É o caso, por exemplo, de Cristiano Ronaldo, que nasceu e se formou em Portugal, mas joga na Arábia Saudita; de Lionel Messi, nascido e formado na Argentina, mas a jogar nos Estados Unidos; ou de Virgil van Dijk, nascido e formado nos Países Baixos, mas a jogar em Inglaterra. Significa isto que, em muitos casos — mas longe de serem uma esmagadora maioria —, as selecções nacionais continuam a assentar em percursos de nascimento e formação bastante ligados ao país representado. A internacionalização aparece sobretudo depois, no mercado profissional. O jogador cresce e forma-se num determinado contexto nacional, mas a carreira leva-o para outro país, frequentemente para ligas com maior capacidade financeira e maior visibilidade internacional.
A segunda categoria mais numerosa é a dos jogadores que nasceram, se formaram e jogam no país representado: 311 casos (25% do total). Aqui encontramos trajectórias mais “nacionais” nas três dimensões principais. Em Portugal, por exemplo, entram neste perfil jogadores como Gonçalo Inácio, Francisco Trincão ou Rui Silva: nasceram em Portugal, fizeram a formação em Portugal e jogam em clubes portugueses. Noutros contextos, há casos semelhantes, como Jonathan Osorio no Canadá, David Ospina na Colômbia ou vários jogadores das selecções da Chéquia e da Arábia Saudita.
Depois surgem 225 jogadores que nasceram, se formaram e jogam fora do país que representam. O que não quer dizer que não tenham ligação ao país. Representam 18% do total de jogadores presentes no Mundial. Esta categoria é particularmente interessante porque aponta para selecções cuja base desportiva depende fortemente de diásporas, duplas pertenças, naturalizações ou trajectórias familiares transnacionais. Matheus Nunes, por exemplo, nasceu e iniciou a formação no Brasil, representa Portugal e joga em Inglaterra. Achraf Hakimi nasceu e formou-se em Espanha, representa Marrocos e joga em França. Noussair Mazraoui nasceu e formou-se nos Países Baixos, representa Marrocos e joga em Inglaterra. Riyad Mahrez nasceu e formou-se em França, representa a Argélia e joga na Arábia Saudita. Ramiz Zerrouki nasceu e formou-se nos Países Baixos, representa a Argélia e joga também nos Países Baixos. A selecção, nestes casos, não coincide com o espaço principal de nascimento, formação ou trabalho actual. A identidade é complexa e íntima.
A camada das origens familiares exige uma explicação especial. Aqui não estamos perante uma variável observável com o mesmo grau de exaustividade que o país de nascimento ou o clube actual. A informação depende daquilo que é publicamente conhecido e documentado. Há jogadores cujas origens familiares são muito mencionadas em entrevistas, biografias, reportagens ou perfis desportivos. Há outros sobre os quais essa informação não aparece, ou aparece de forma vaga. Os 425 jogadores para os quais consegui chegar a alguma informação constituem uma amostra documentada, não uma medição completa de todas as histórias familiares.
Entre esses 425 jogadores, há três grandes situações. A primeira é a origem parental directa transnacional: casos em que foi possível identificar pelo menos um pai ou uma mãe ligados a outro país ou território. São 153 jogadores, cerca de 36% dos casos com origens documentadas. Matheus Nunes, por exemplo, tem uma origem parental directamente ligada a Portugal e ao Brasil; Nélson Semedo e Nuno Mendes têm origem parental cabo-verdiana documentada; muitos jogadores da Suíça têm ligações parentais ao Kosovo, à Albânia, à Nigéria, ao Senegal ou aos Camarões.
A segunda situação é a ascendência adicional, avós ou elegibilidade familiar documentada. São 208 jogadores, cerca de 49% dos casos com origens documentadas. Aqui a informação não permite necessariamente identificar o pai ou a mãe, mas indica uma ligação familiar mais ampla: avós, ascendência mencionada em fontes biográficas, cidadania herdada ou elegibilidade familiar. É o caso de jogadores cuja ligação ao país representado passa por avós, por ascendência familiar ou por uma pertença reconhecida pelas regras desportivas, mesmo quando o percurso pessoal decorreu noutro país.
A terceira situação é a origem parental documentada apenas no país representado. São 64 jogadores, cerca de 15% dos casos com origens documentadas, que não têm ligação (publicamente documentada) a nenhum outro país a não ser aquele que representam. São longe de ser uma maioria, portanto.
As selecções onde as origens documentadas mais aparecem não formam um grupo aleatório. Curaçao, Bósnia-Herzegovina, França, Congo DR, Marrocos, Países Baixos, Argélia, Haiti, Tunísia, Suíça, Estados Unidos ou Canadá são casos que remetem, de formas diferentes, para histórias de migração, diáspora, passado colonial, fronteiras nacionais recentes, dupla nacionalidade ou circulação entre espaços linguísticos e familiares.
Mas as histórias por trás destes números são diferentes. No caso de França, aparecem com frequência ligações familiares ao Norte de África e à África subsaariana — Argélia, Mali, Camarões, Senegal, Guiné-Bissau, Mauritânia —, bem como a territórios ultramarinos franceses, como Guadalupe ou Martinica (integram o território nacional, mas optei por distinguí-los devido à distância). No caso de Marrocos, muitas origens documentadas remetem para famílias marroquinas de jogadores nascidos ou formados em Espanha, França, Bélgica ou Países Baixos. Nos Países Baixos, surgem ligações recorrentes ao Suriname, Curaçao, Aruba, Gana, Indonésia ou às Molucas. Nos Estados Unidos, aparecem ligações ao México, Libéria, Nigéria, Jamaica, Guatemala, El Salvador, Croácia ou Alemanha. Na Suíça, destacam-se trajectórias ligadas ao Kosovo, Albânia, Nigéria, Camarões, Senegal, Turquia ou Chile. Em alguns casos, a selecção mobiliza jogadores nascidos e formados em antigas metrópoles coloniais. Noutros, aparecem trajectórias familiares associadas a migrações laborais, exílio, comunidades diaspóricas ou circulação entre países próximos. A semelhança estatística pode esconder histórias muito diferentes.


A distância ajuda a tornar estas trajectórias mais concretas. Não se trata apenas de dizer que um jogador “joga fora”. Interessa perceber quão longe está o clube actual do lugar onde nasceu. Na base, a distância média entre local de nascimento e cidade do clube actual é de cerca de 3 059 km, mas a mediana é bastante mais baixa, cerca de 1 113 km. Esta diferença mostra uma distribuição muito desigual: muitos jogadores permanecem relativamente perto do lugar onde nasceram, enquanto uma parte menor percorre trajectórias muito longas.
Quase metade dos jogadores joga até mil km do lugar onde nasceu. Há 62 jogadores cujo clube actual está praticamente no mesmo ponto do local de nascimento, até 1 km, e outros 213 estão entre 1 e 250 km. O grupo mais numeroso está entre 250 e mil km: são 319 jogadores, cerca de um quarto da base. Mas há também 154 jogadores entre 6 mil e 10 mil km e 92 jogadores a mais de 10 mil km do lugar onde nasceram (as selecções australiana e neo-zelandesa são os principais casos).
Os casos portugueses mostram bem essa diversidade. Cristiano Ronaldo nasceu e formou-se na Madeira, mas joga hoje em Riade, a cerca de 6 183 km do Funchal. Matheus Nunes nasceu no Rio de Janeiro, formou-se no Brasil, representa Portugal e joga em Manchester, a cerca de 9 361 km do lugar onde nasceu. Diogo Costa faz quase o percurso inverso: nasceu na Suíça, formou-se em Portugal e joga no Porto. Rafael Leão nasceu em Almada e joga em Milão. Nélson Semedo nasceu em Lisboa e joga em Istambul.
Fora do caso português, há trajectórias igualmente reveladoras. Achraf Hakimi nasceu em Madrid, formou-se em Espanha, representa Marrocos e joga em Paris. Noussair Mazraoui nasceu nos Países Baixos, representa Marrocos e joga em Inglaterra. Christian Pulisic nasceu nos Estados Unidos, formou-se parcialmente em Inglaterra e joga em Itália. Timothy Weah (acabei de descobrir que é filho de um dos meus ídolos da infância) nasceu em Nova Iorque, joga em Marselha e tem uma história familiar ligada à Libéria e à Jamaica. Estes exemplos, que retirei dos dados, ajudam a perceber o que os números significam: uma selecção nacional é também uma colecção de trajectórias espaciais.

Mesmo com esta limitação, a camada das origens é muito relevante, por revelar o modo como um Mundial representa também um espelho de histórias familiares, migrações passadas, diásporas e formas múltiplas de pertença. Em certos casos, o jogador representa o país onde nasceu e se formou. Noutros, representa o país dos pais, dos avós, ou um país com o qual mantém uma ligação familiar reconhecida pelas regras desportivas.
São cinco geografias diferentes. A selecção nacional é uma categoria desportiva e institucional. O nascimento é uma geografia biográfica. A formação é uma geografia de socialização desportiva. O clube actual é uma geografia do trabalho. As origens familiares são uma geografia de pertença, memória e possibilidade. Quando estas camadas coincidem, a trajectória parece simples. Quando se afastam, revelam toda a complexidade social e espacial que existe por trás do futebol internacional e dos indivíduos que o compõem.
Esta primeira leitura não esgota o tema. Abre a pergunta seguinte: onde estão esses lugares? Onde nasceram os jogadores? Onde se formaram? Onde jogam hoje? Que relações entre países revela a geografia das migrações? E que mapas aparecem quando deixamos de contar apenas países e começamos a olhar para cidades, regiões e trajectórias? Questões que serão respondidas no próximo artigo, ainda esta semana.

