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O mercado global dos clubes

Nas duas primeiras peças desta série (1 e 2), olhámos para as selecções a partir de várias geografias: o país representado, o país de nascimento, o país de formação e as origens familiares documentadas. Nesta terceira peça, perguntamos onde trabalham actualmente, e o que isto revela da economia do desporto.

O primeiro gráfico mostra os países onde se localizam os clubes actuais dos 1 248 jogadores da base. A Inglaterra surge muito destacada, com 199 jogadores. Depois aparecem Alemanha com 110, Espanha com 85, França com 84 e Itália com 71. Cinco países europeus (10% do conjunto “presentes no Mundial + Itália”) concentram 44% dos jogadores do Mundial. Depois deste primeiro bloco europeu aparecem outros pólos importantes, alguns dos quais não costumavam aparecer há alguns anos: Arábia Saudita, Turquia, Estados Unidos, Países Baixos, Brasil, Portugal, Bélgica e Qatar. A geografia do emprego futebolístico não coincide, longe disso, com a geografia das selecções.

Quando agrupamos os dados por continente, a concentração torna-se ainda mais visível. A Europa reúne 853 dos 1 248 jogadores da base, ou seja, 68,3%. A seguir aparece a Ásia, com 181 jogadores, ou 14,5%. A América do Norte reúne 82 jogadores (6,6%), a América do Sul apenas 63 (5%), África 53 e Oceânia 16. A Europa continua a ser o grande centro de emprego dos jogadores que chegam ao Mundial.

O caso da Ásia

A Ásia aparece como o segundo continente mais importante na base, com 181 jogadores, ou 14,5% do total. Mas este número esconde realidades muito diferentes. Se distinguirmos o Golfo e o Médio Oriente da Ásia central, oriental e sudeste asiático, percebe-se que o peso asiático está longe de ser uniforme.

A maior parte dos jogadores em clubes asiáticos está no Golfo e no Médio Oriente. Só a Arábia Saudita reúne 50 jogadores, ou 4,0% da base total e 27,6% dos jogadores em clubes asiáticos. O Qatar vem a seguir, com 29 jogadores (2,3% do total; 16,0% da Ásia). Depois surgem o Irão, com 22 (1,8%; 12,2%), os Emirados Árabes Unidos e o Iraque, ambos com 15 (1,2%; 8,3% cada), e a Jordânia, com 12 (1,0%; 6,6%).

No conjunto, estes países do Golfo e do Médio Oriente concentram 143 dos 181 jogadores em clubes asiáticos, ou seja, 79,0% da presença asiática na base.

Esta concentração também aparece nas cidades. Riyadh reúne 22 jogadores, Doha reúne 20, Jeddah 13, Baghdad 11 e Tehran 11. O peso asiático não resulta de uma distribuição ampla pelo continente, mas de alguns mercados nacionais e urbanos com capacidade de reter ou atrair jogadores. Os países do Golfo — aqui considerados como Arábia Saudita, Qatar e Emirados Árabes Unidos — reúnem 94 jogadores da base, ou 7,5% do total. Mas este conjunto não é composto apenas por jogadores locais: 50 jogadores representam o próprio país onde jogam (53,2% do Golfo), enquanto 44 representam outras selecções (46,8%). A mesma mistura aparece no nascimento e na formação: 39 jogadores nasceram no país do clube (41,5%) e 55 nasceram fora (58,5%); 43 formaram-se no país do clube (45,7%) e 51 formaram-se fora (54,3%). Entre os países de nascimento mais presentes estão a Arábia Saudita (25 jogadores), o Qatar (14), a França (7), e depois Egipto, Irão e Portugal (4 cada). A leitura principal é que o Golfo combina duas realidades: por um lado, ligas nacionais que retêm muitos jogadores sauditas e qataris; por outro, mercados capazes de atrair futebolistas formados ou nascidos noutros contextos, incluindo Europa, Norte de África, Médio Oriente e América do Sul.

Fora do Médio Oriente, o peso é mais limitado. A Ásia central, oriental e sudeste asiático reúne 38 jogadores, ou 3,0% da base total e 21,0% dos jogadores em clubes asiáticos. O caso mais visível é o Uzbequistão, com 17 jogadores (1,4% do total; 9,4% da Ásia). Depois surgem a Coreia do Sul, com 8 (0,6%; 4,4%), e o Japão, com 7 (0,6%; 3,9%). Em conjunto, Japão e Coreia do Sul concentram 15 jogadores, ou 1,2% da base total e 8,3% da presença asiática.

A Ásia não é um bloco único. A Arábia Saudita e o Qatar representam mercados muito marcados por capacidade financeira e investimento recente. O Irão, o Iraque e a Jordânia reflectem ligas nacionais relevantes nos seus próprios contextos. O Uzbequistão mostra uma base doméstica importante para a sua selecção. Japão e Coreia do Sul aparecem sobretudo pela existência de campeonatos organizados, estáveis e competitivos, mas com menor peso nesta base do que os grandes mercados europeus ou o eixo do Golfo.

A Banana Azul europeia

O zoom euro-mediterrânico permite ver melhor a distribuição entre Europa, Norte de África e Médio Oriente. Aqui aparecem Londres, Manchester, Madrid, Paris, Munique, Milão, Lisboa, Barcelona, Liverpool, Glasgow, Dortmund, mas também Istambul, Riyadh, Doha, Jeddah, Cairo, Tehran e Baghdad. Esta geografia diz muito sobre o futebol contemporâneo. A Europa ocidental continua a concentrar clubes e ligas de grande poder económico. Mas o Golfo tornou-se, como já se viu, um pólo cada vez mais visível, sobretudo pela capacidade de atrair jogadores com salários elevados e projectos desportivos financiados por Estados e por grandes grupos económicos. A presença de Riyadh, Doha e Jeddah no mapa, algo inédito na história do desporto, mostra que o mercado global dos clubes já não pode ser visto através das nossas velhas lentes e da oposição entre Europa e resto do mundo. A Europa continua dominante, mas há pólos financeiros fora da Europa que também pesam no emprego dos jogadores internacionais. Basta pensar no caso do Cristiano Ronaldo que chegou a encontrar-se com o Donald Trump em representação e acompanhamento da delegação da Arábia Saudita.

O mapa mais centrado na Europa mostra ainda outra coisa, a que estamos muito mais habituados: a densidade do centro e oeste europeus. Londres, Manchester e Liverpool destacam-se no Reino Unido. Paris aparece em França. Madrid e Barcelona em Espanha. Munique, Dortmund e outras cidades alemãs marcam a Europa central. Milão surge como um dos grandes pólos italianos. Lisboa aparece no extremo ocidental da malha europeia. Istambul, no limite oriental do mapa, mostra a importância do mercado turco. Esta distribuição lembra, em grande parte, a chamada Banana Azul: o corredor urbano e económico que liga o sudeste de Inglaterra ao Benelux, ao vale do Reno, à Suíça e ao norte de Itália. A expressão vem da geografia económica europeia e não foi pensada para o futebol. Mas ajuda a perceber porque muitos dos clubes que concentram jogadores do Mundial estão em regiões urbanas densas, ricas, bem conectadas e historicamente integradas em redes económicas europeias. O futebol não copia simplesmente a economia, mas também insere-se nela. Os clubes fortes tendem a aparecer onde há mercados grandes, receitas televisivas, patrocinadores, estádios, transportes, capital privado, turismo, consumo e visibilidade internacional. A geografia do futebol profissional é também uma geografia económica.

O gráfico das localidades torna esta concentração ainda mais concreta. Londres aparece no topo, com 60 jogadores. “Londres” tem uma forte concentração de clubes: Arsenal, Chelsea, Tottenham, West Ham, Crystal Palace, Fulham, Brentford e outros. É uma cidade-região futebolística. A seguir aparecem Istambul, com 33 jogadores (a cidade concentra os três maiores clubes turcos), e a conurbação Manchester/Liverpool, com 31. Depois surgem Madrid com 24, Riyadh com 22, Doha com 20, e um conjunto de cidades com valores um pouco mais baixos: Paris, Munique, Milão, Cairo, Lisboa, Barcelona.

Se olharmos para clubes, a concentração também aparece. Na base, os clubes com mais jogadores incluem Manchester City, Bayern München, Paris Saint-Germain, Arsenal e Barcelona. Surgem também clubes como Al Hilal, Atlético de Madrid, Crystal Palace, Manchester United, Borussia Dortmund e Galatasaray. Volta a aparecer uma regularidade: os clubes mais presentes pertencem a mercados ricos, muito competitivos ou em forte expansão. A Premier League destaca-se. A Bundesliga, La Liga, Ligue 1, Serie A e a liga turca também aparecem. A Arábia Saudita entra através de clubes como Al Hilal e Al Ahli.

A América do Sul

A América do Sul, enquanto local de trabalho, reúne 63 jogadores da base, ou 5,0% do total. É uma presença bastante inferior à da Europa e também menor do que a da Ásia, mas continua a ser importante porque corresponde a uma das regiões históricas mais fortes do futebol mundial.

Tal como acontece noutros continentes, a distribuição não é equilibrada. O Brasil concentra 32 jogadores, ou 2,6% da base total e 50,8% dos jogadores que actuam em clubes sul-americanos. A Argentina surge depois, com 17 jogadores (1,4% do total; 27,0% da América do Sul). Em conjunto, Brasil e Argentina reúnem 49 dos 63 jogadores que actuam em clubes sul-americanos, isto é, 77,8% da presença regional.

Os outros países aparecem com valores mais baixos: Equador, com 5 jogadores (0,4% do total; 7,9% da América do Sul); Paraguai, com 3 (0,2%; 4,8%); Chile e Venezuela, com 2 cada (0,2%; 3,2%); e Colômbia e Uruguai, com 1 cada (0,1%; 1,6%).

A concentração também é visível nas cidades, em particular na região Sudeste da América do Sul. Rio de Janeiro reúne 12 jogadores, Buenos Aires 10, São Paulo 9, Porto Alegre e Belo Horizonte 4 cada. Fora do eixo Brasil–Argentina, destacam-se Quito, com 4 jogadores, e Asunción, com 3. A presença sul-americana é, portanto, muito marcada por alguns grandes centros urbanos e por clubes historicamente fortes.

E África?

A presença africana nos clubes da base é bastante mais reduzida do que a europeia ou asiática. Dos 1 248 jogadores, apenas 53 actuam em clubes africanos, ou seja, 4,2% do total.

Também aqui convém evitar falar de “África” como se fosse um bloco homogéneo. A maior parte destes jogadores concentra-se em poucos países. O Egipto reúne 20 jogadores, o que corresponde a 1,6% da base total e 37,7% dos jogadores em clubes africanos. A África do Sul vem logo a seguir, com 19 jogadores (1,5% do total; 35,8% da presença africana). Juntos, Egipto e África do Sul concentram 39 dos 53 jogadores que actuam em clubes africanos, isto é, 73,6% desse conjunto.

Depois aparecem valores bastante mais baixos: Tunísia, com 7 jogadores (0,6% do total; 13,2% da presença africana); Argélia e Marrocos, com 3 jogadores cada (0,2% do total; 5,7% da presença africana, em cada caso); e Gana, com 1 jogador (0,1% do total; 1,9% da presença africana).

A concentração também se vê nas cidades. Cairo reúne 17 jogadores, quase um terço de todos os jogadores da base que actuam em clubes africanos (32,1%). Na África do Sul, destacam-se Pretória e Soweto, com 8 jogadores cada. Depois aparecem cidades como Tunes, Giza, Argel, Casablanca, Rabat, Sfax, Sousse, Berkane, Acra ou Joanesburgo, mas com valores muito inferiores.