À porta de muitas escolas, a manhã começa com uma cena familiar: estão automóveis em fila, adultos apressados, crianças que saem rapidamente do banco de trás e atravessam poucos metros até ao portão. Durante muito tempo, esta imagem foi lida sobretudo como um problema de trânsito. Congestionamento, estacionamento em segunda fila, insegurança junto às entradas das escolas. Mas a literatura científica recente veio sugerir que a questão não se esgota aí. O modo como uma criança vai para a escola pode estar associado ao seu bem-estar psicológico, ao seu nível de actividade física, ao seu sono, ao seu desempenho escolar e às suas oportunidades quotidianas de autonomia.
Convém começar com prudência. A investigação directa sobre crianças dos 4 aos 11 anos ainda é limitada. Muitos estudos começam por volta dos 10 ou 11 anos e incluem adolescentes, porque é nessas idades que se aplicam com mais facilidade instrumentos de medição de sintomas depressivos, ansiedade, queixas psicossomáticas ou satisfação com a vida. A evidência causal específica para os 4–11 anos é ainda muito escassa, e uma parte das conclusões tem de ser extrapolada com cautela a partir de crianças mais velhas e adolescentes mais novos. Ainda assim, o sentido geral dos resultados parece ser bastante consistente: as deslocações escolares mais longas associam-se a pior bem-estar psicológico e a pior desempenho escolar; as deslocações ditas “activas”, sobretudo a pé ou de bicicleta, associam-se frequentemente a melhores indicadores de saúde mental; o automóvel não surge como uma solução psicologicamente superior aos modos activos ou, em certos contextos, ao transporte público.
Um dos estudos mais relevantes é o de Ding e Feng, publicado no International Journal of Environmental Research and Public Health em 2022. Os autores usaram dados nacionais do China Education Panel Survey, com 4 807 alunos e idade média em torno dos 14 anos. Construíram um índice de bem-estar psicológico de 0 a 100 a partir de dez itens emocionais. O resultado foi muito claro: cada 10 minutos adicionais de deslocação escolar, num só sentido, estavam associados a uma diminuição de 1,15 pontos nesse índice de bem-estar psicológico, depois de controlar factores individuais, familiares e escolares. O mesmo estudo encontrou também uma associação com desempenho escolar: cada 10 minutos adicionais de deslocação estavam associados a uma redução de 0,77 pontos nas classificações médias, numa escala de 0 a 100. O artigo original confirma que o tempo de deslocação se associa negativamente ao bem-estar psicológico e ao desempenho académico das crianças na China.
Este número pode parecer pequeno quando visto isoladamente. Uma redução de 1,15 pontos numa escala de 100 não é, por si só, dramática. Mas a deslocação escolar não acontece uma vez. Acontece todos os dias, duas vezes por dia, durante anos. Uma criança que gasta mais 20 ou 30 minutos em cada viagem acumula uma carga temporal muito diferente daquela que vive perto da escola. O tempo de transporte substitui outras actividades: dormir mais um pouco, brincar, estar ao ar livre, conversar antes das aulas, chegar sem pressa. O estudo de Ding e Feng não prova que o tempo de deslocação cause directamente pior saúde mental em todos os contextos, mas mostra que a duração da viagem não deve ser tratada como detalhe logístico.
Há evidência ainda mais próxima da escola primária. A BMC Public Health publicou, em 2025, um estudo com 12 394 alunos de escolas primárias rurais na China, distribuídos por 249 escolas em 18 condados. A idade média era de cerca de 10,5 anos, portanto já dentro da faixa final do ensino primário. Os autores analisaram a relação entre tempo de deslocação, desempenho escolar e saúde mental, com a ajuda de um teste de saúde mental baseado em ansiedade. Os resultados indicavam que cada hora adicional de deslocação estava associada a uma diminuição de 0,148 desvios-padrão no desempenho académico e a um aumento de 3,039 pontos no teste de saúde mental, em que valores mais altos indicam maior risco de problemas. Parte deste efeito parece passar pela redução do tempo de sono e pela diminuição das actividades ao ar livre depois da escola.
Este ponto é importante para evitar uma leitura simplista. Não se trata apenas de saber se uma criança vai de carro, a pé, de bicicleta ou de autocarro. O tempo de deslocação é uma variável central. Uma caminhada curta e segura pode ser positiva; uma caminhada longa, perigosa ou cansativa pode não o ser. Um transporte público fiável pode reduzir o desgaste de uma deslocação rural; um transporte público sobrelotado ou imprevisível pode aumentar o stress. O problema do automóvel surge sobretudo quando se torna a resposta dominante para trajectos longos, para territórios organizados em torno da distância e para ambientes escolares onde a rua deixou de ser considerada um espaço aceitável para as crianças.
A investigação sobre transporte activo acrescenta aqui outra peça. Gu e Chen estudaram 6 478 adolescentes jovens em Xangai, com idade média de 13,6 anos, e analisaram a associação entre deslocação activa para a escola (caminhar ou pedalar todos os dias) e sintomas depressivos. Depois de ajustarem factores como tempo de ecrã, índice de massa corporal, tabaco, álcool e relações com amigos, descobriram que os alunos que faziam uma deslocação activa tinham 20% mais probabilidade de não reportar sintomas depressivos do que os que usavam modos passivos. Os autores concluíram que a deslocação activa pode desempenhar um papel na prevenção de sintomas depressivos entre adolescentes jovens.
A palavra “associação” é decisiva. Estes estudos não permitem dizer simplesmente: “andar a pé cura sintomas depressivos” ou “ir de carro causa pior saúde mental”. A realidade é, evidentemente, mais complexa. As famílias que vivem perto da escola podem ser diferentes das que vivem longe; os bairros caminháveis tendem a ter características sociais e urbanas próprias; as crianças que caminham podem ter maior autonomia prévia; os pais que permitem essa autonomia podem ter percepções de segurança diferentes. Mas a associação persiste em vários estudos, com controlos estatísticos diferentes, e aponta para esta ideia: a deslocação activa pode ser uma componente relevante de um quotidiano infantil mais saudável.
Um dos estudos mais fortes sobre queixas psicossomáticas vem da rede HBSC, com um estudo internacional sobre comportamentos de saúde em crianças em idade escolar. Kleszczewska e colaboradores analisaram 55 607 alunos de nove países europeus, com idade média de 13,4 anos. Os modos de deslocação foram classificados como caminhar, pedalar ou transporte passivo, incluindo automóvel, autocarro, comboio, eléctrico ou metro. Os alunos que usavam transporte passivo apresentavam os níveis mais elevados de queixas psicossomáticas totais, incluindo componentes somáticas e psicológicas. Os ciclistas apresentavam os níveis mais baixos. No modelo ajustado por idade, género, país e dificuldade da viagem, ir de bicicleta para a escola estava associado a uma redução de 0,498 pontos no índice geral de queixas HBSC-SCL, bem como a reduções de 0,208 no índice de queixas somáticas e de 0,285 no índice de queixas psicológicas. A caminhada mostrou efeitos mais fracos e menos consistentes, enquanto a bicicleta apareceu como o modo activo mais claramente protector. (Este resultado merece uma leitura cuidada. A bicicleta pode aparecer com melhores indicadores porque implica actividade física mais intensa, maior sensação de competência e, muitas vezes, contextos urbanos onde existe alguma infraestrutura ou cultura de mobilidade activa. Não é por acaso que os estudos insistem tanto no contexto. Uma criança que pedala numa rua hostil ao trânsito automóvel pesado não vive a mesma experiência que uma criança que pedala numa rede segura, contínua e socialmente aceite. O modo de transporte nunca é apenas uma escolha individual; é também uma expressão do ambiente construído.)
Há ainda um estudo multinacional com 51 702 adolescentes de 26 países de baixo e médio rendimento, publicado por Liu e colaboradores. A amostra tinha idades entre 12 e 15 anos. O estudo encontrou uma associação entre deslocação activa para a escola e menor probabilidade de sintomas depressivos, controlando idade, sexo e país, embora os efeitos variassem entre contextos nacionais. A idade dos participantes já se afasta da infância mais jovem, mas o estudo é relevante por reforçar a consistência internacional da relação entre actividade quotidiana incorporada no trajecto escolar e saúde mental.
O Chile oferece um exemplo interessante porque os resultados são menos lineares. Caamaño-Navarrete e colaboradores estudaram 511 crianças e adolescentes entre os 10 e os 17 anos, usando a escala DASS-21, que mede depressão, ansiedade e stress. A deslocação activa não apareceu significativamente associada aos valores globais de depressão ou ansiedade, mas surgiu inversamente associada ao stress. Segundo o relatório, isto sugere níveis mais baixos de stress entre os alunos que caminhavam ou pedalavam para a escola. Este tipo de resultado é útil precisamente por impedir uma narrativa demasiado limpa. A evidência não diz sempre a mesma coisa para todos os indicadores, idades e países. O que existe é uma tendência convergente, não uma lei universal.
E o automóvel? Aqui a interpretação exige ainda mais cautela. Muitos estudos juntam carro, autocarro, comboio, eléctrico e metro numa categoria de “transporte passivo”, o que dificulta a comparação directa, por exemplo, entre automóvel e transporte público. Há poucos estudos a separarem claramente o carro dos restantes modos passivos (já tive ocasião de debater publicamente se o transporte público deve ser considerado activo ou passivo, mas não é essa a questão aqui). Ainda assim, quando o transporte passivo é comparado com a caminhada ou a bicicleta, tende a aparecer associado a mais sintomas depressivos, mais queixas psicossomáticas ou níveis mais elevados de stress. No estudo HBSC dos nove países, o grupo passivo foi o que apresentou mais queixas totais e psicológicas.
Há uma excepção que vale a pena mencionar. No estudo rural chinês de Guan e colaboradores, os alunos que iam de carro (uma pequena fracção da amostra) apresentavam resultados ligeiramente melhores do que os que iam a pé, após ajustamentos.
A dimensão social é mais difícil de medir, mas não deve ser ignorada. A investigação quantitativa mede melhor sintomas, queixas e resultados escolares do que amizade, autonomia ou competência social. Mesmo assim, há estudos relevantes. Um estudo longitudinal nacional no Canadá, com 2 291 crianças dos 7 aos 12 anos, analisou a mobilidade independente, isto é, a liberdade de circular no bairro sem supervisão adulta, e o sofrimento psicológico reportado pelos pais. As crianças autorizadas a circular mais longe de casa apresentavam menor probabilidade de níveis clinicamente elevados de sofrimento, mesmo após ajustamento por diversas variáveis.
Este resultado não é especificamente sobre a viagem para a escola, mas ajuda a interpretar a deslocação escolar como parte de um ecossistema de autonomia infantil. Caminhar até à escola com colegas, atravessar uma rua segura, reconhecer o bairro, combinar um ponto de encontro, resolver pequenos imprevistos: tudo isto são experiências sociais e cognitivas. Não substituem a escola, nem a família, nem actividades organizadas. Mas fazem parte da aprendizagem quotidiana de viver num espaço comum.
Daqui decorre uma implicação política importante. Se as deslocações longas estão associadas a pior bem-estar e pior desempenho, então encerrar escolas, concentrar equipamentos ou alargar áreas de “recrutamento” constituem decisões que podem alterar o tempo diário das crianças, o sono, as oportunidades de brincar e o desgaste familiar. Quanto à escolha dos pais, entre levar os filhos de automóvel, a pé ou de transporte público: o propósito não é culpabilizá-los. Muitas famílias levam os filhos de carro porque o território não lhes oferece alternativas razoáveis. A escola pode estar longe; o percurso pode ser perigoso; o transporte público pode não existir ou não servir os horários; o medo do trânsito pode ser perfeitamente racional. Quando o ambiente urbano é hostil à infância, o automóvel torna-se uma resposta compreensível, embora colectivamente ineficiente porque a generalização da resposta individual torna a envolvente escolar ainda mais dependente do carro, mais congestionada e menos segura para quem tenta caminhar ou pedalar.
A imagem da porta da escola é um indicador potente da forma como organizamos a infância no espaço. Quando quase todas as crianças chegam de carro, a questão não se resume à fila junto ao portão. Uma boa política de mobilidade escolar não começa por mandar as crianças andar a pé. Começa por tornar possível que caminhar, pedalar ou usar transporte público sejam opções seguras, realistas e socialmente aceites. A diferença é grande. A primeira formulação transforma um problema colectivo numa obrigação familiar. A segunda reconhece que a saúde mental e o desenvolvimento social das crianças também se constroem nos percursos, nas ruas e nas pequenas liberdades do quotidiano.
Para ir mais longe:
Ding, Pengxiang; Feng, Shuaizhang — How School Travel Affects Children’s Psychological Well-Being and Academic Achievement in China — https://www.mdpi.com/1660-4601/19/21/13881
Guan, H.; et al. — Examining the relationship between commuting time, academic achievement, and mental health in rural China — https://link.springer.com/article/10.1186/s12889-025-22861-7
Gu, J.; Chen, S.-T. — Association between Active Travel to School and Depressive Symptoms among Early Adolescents — https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7278828/
Kleszczewska, D.; Mazur, J.; Buksch, J.; Dzielska, A.; Brindley, C.; Michalska, A. — Active Transport to School May Reduce Psychosomatic Symptoms in School-Aged Children: Data from Nine Countries — https://www.mdpi.com/1660-4601/17/23/8709
Liu, S.; et al. — Association between Active School Travel and Depressive Symptoms among 51,702 Adolescents in 26 Low- and Middle-Income Countries — https://www.sciencedirect.com/org/science/article/pii/S1462373021000213
Caamaño-Navarrete, F.; Del-Cuerpo, I.; Arriagada-Hernández, C.; Alvarez, C.; Gaya, A. R.; Reuter, C. P.; Delgado-Floody, P. — Association between Active Commuting and Lifestyle Parameters with Mental Health Problems in Chilean Children and Adolescent — https://www.mdpi.com/2076-328X/14/7/554
Larouche, R.; Faulkner, G.; Bélanger, M.; Brussoni, M.; Gunnell, K.; Tremblay, M. S. — “Out and about”: relationships between children’s independent mobility and mental health in a national longitudinal study — https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/14733285.2024.2397734
Waygood, E. O. D.; Friman, M.; Olsson, L. E.; Taniguchi, A. — Transport and child well-being: An integrative review — https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S2214367X16300734

